Bancos fraudam ativos intangíveis e prejudicam o mercado

Compreendendo a complexidade dos intangíveis.

A marca era Comind, forma reduzida de Banco do Comércio e Indústria de São Paulo. Foi importante na sua época, mas atualmente é um nome lembrado mais pelos seus defeitos do que pelas suas virtudes. Para se ter uma idéia, pouco antes de ser fechada, a instituição ocupava a oitava posição do ranking brasileiro de bancos. Já que o Comind atuava com maior ênfase junto ao segmento corporativo, a posição era suficiente para garantir-lhe linhas internacionais e no interbancário a custos competitivos.

Nomes importantes contemporâneos também desapareceram: Auxiliar, BCN, Econômico, Bamerindus … , a lista é imensa. Segundo matéria da Veja , o Banco Central já interveio ou fechou mais de 600 instituições bancárias no país, incluindo o Banco Nacional, liquidado em 1996, mas, ainda segundo a reportagem, quebrado desde 1986 quando vinha falsificando seus balanços: “Sobreviveu como um banco bom e rentável, porque sua diretoria e seus controladores, os irmãos Marcos e Eduardo Magalhães Pinto, mentiram para o BC, para os acionistas minoritários, para os clientes e para os outros bancos que lhes davam socorro de vez em quando. Todos os balanços do Banco Nacional da última década foram escandalosamente fraudados para encobrir uma instituição arruinada, que não tinha dinheiro para pagar suas dívidas. É possível que tenha sido a maior e a mais duradoura farsa da história financeira do país.”.

Quando marcas importantes do mercado financeiro naufragam, muitas vezes por desvios de caráter dos seus dirigentes, é possível esperarmos que isso pelo menos sirva de lição para aqueles que estão nos camarotes, eventualmente satisfeitos com a derrota de ex-concorrentes. Todavia, quando olhamos para casos recentes, inclusive do Banco Santos, tememos que o mercado não disponha de todos os instrumentos de informação para saber até que ponto certas empresas estão sendo administradas de forma correta, diante dos olhos da comunidade, dos funcionários e dos investidores.

Mas o que é que o Comind tinha? Sou um ex-capital humano da instituição, onde atuei na área internacional por mais de dois anos. O Comind naufragou em 1985, mas antes disso era uma daquelas marcas “fáceis” de vender, principalmente quando se tratava de serviços de comércio exterior. O banco tinha muitos recursos em moeda estrangeira (funding) para aplicar, muitos clientes para tomar e uma qualidade administrativa que simplificava a vida de todo mundo, inclusive dos clientes. Além disso, era relativamente rápido para emprestar e deixava seus executivos tomarem as decisões necessárias para fazer a máquina funcionar.

Tinha também um ótimo ambiente, não pagava mal e oferecia benefícios, inclusive um bom refeitório (numa época em que isso não era moda). Principalmente, dava oportunidades de carreira para quem era dedicado, além de treinamento constante, sempre em bons hotéis e com ótimos professores.

Foi justamente num curso de avaliação de crédito patrocinado pelo Comind em 1985 que despertei para a importância dos ativos intangíveis. Para simplificar, em um dado momento o professor comentou algo assim: “as informações mais importantes a respeito das empresas não estão nos balanços”. Ou seja, mesmo que o departamento de crédito decidisse a concessão do empréstimo desde a análise dos três últimos balanços, o que valia mesmo era o que a empresa guardava sob os números: caráter, competência e educação dos gestores, responsabilidade social, lealdade, transparência, outros. Hoje já se sabe que sem pisar o “chão da fábrica”, e conhecer os fatos que não estão nos balanços, nenhum banco será capaz de tomar decisões inteligentes de crédito.

Pode ser que a combinação infeliz de vários fatores tenha contribuído para o desaparecimento do banco. Muitas críticas e uma série interminável de hipóteses ainda tentam explicar as causas do fim do Comind. Alguns dizem que foram problemas políticos, enquanto outros alegam que os gestores não atuavam segundo as melhores práticas da época. Agora não é o momento de rever com profundidade o caso do banco, mas é possível utilizá-lo como referência para reflexões a respeito do funcionamento dos processos avançados de avaliação de ativos intangíveis.

Escala Richter e Avaliação de Ativos Intangíveis

Foi desenvolvida em 1935 pelos sismólogos Charles Francis Richter e Beno Gutenberg. No princípio, a escala estava destinada a medir unicamente os tremores que se produziram na Califórnia (oeste dos Estados Unidos). Na origem, a escala Richter estava graduada de 1 a 9, já que terremotos mais fortes pareciam impossíveis naquela localidade.A escala de Richter não permite avaliar a intensidade de um sismo num local determinado, e em particular em zonas urbanas. Para tal, utilizam-se escalas de intensidade tais como a escala de Mercalli. A magnitude é única para cada sismo, enquanto a intensidade das ondas sísmicas diminui conforme a distância das rochas atravessadas pelas ondas e as linhas de falha.Conforme a nossa experiência na avaliação de ativos intangíveis, aprendemos que antes dos grandes abalos, todas as empresas movem constantemente os seus sensores, em maior ou menor escala. Em tese, isso funcionaria como um alarme para que providências de evasão ou de proteção fossem tomadas a tempo, muito antes que as variações fossem tão grandes a ponto de dispensar a necessidade de uma escala para medi-los. Com tudo já desmoronando ao redor, pouco restaria a fazer que não fosse fugir em busca de abrigo.Mais ou menos um ano antes da liquidação formal do Comind, já era sentido o clima de instabilidade na organização. As linhas internacionais começaram a ficar mais caras, passaram a rarear e, finalmente, tornaram-se indisponíveis para o banco. Esse clima piorava, conforme aumentavam as especulações a respeito da saúde financeira do banco. Assim, chegou o momento de sermos aconselhados discretamente por alguns executivos a deixarmos o barco. 

Nada podendo fazer, conformei-me em abandonar a promissora carreira no banco, sendo que acabara de ser promovido e eleito para atuar na filial de Nova Iorque no ano seguinte, onde pretendia concluir a faculdade. Uma perda terrível.

Nas medições mais elevadas, a Escala de Richter seria de pouca utilidade para uma equiparação aos instrumentos de avaliação dos ativos intangíveis. A escala de Mercalli, entretanto, é mais inspiradora. Ela tem 12 graus:

  • Intensidade I : Nenhum movimento é percebido.
  • Intensidade II : Algumas pessoas podem sentir o movimento se elas estão em repouso e/ou em andares elevados de edifícios.
  • Intensidade III : Diversas pessoas sentem um movimento leve no interior de prédios. Os objetos suspensos se mexem. No exterior, no entanto, nada se sente.
  • Intensidade IV : No interior de prédios, a maior parte das pessoas sente o movimento. Os objetos suspensos se mexem, e também as janelas, pratos, armação de portas.
  • Intensidade V : A maior parte das pessoas sente o movimento. As pessoas adormecidas acordam. As portas fazem barulho, os pratos se quebram, os quadros se mexem, os objetos pequenos se deslocam, as árvores oscilam, os líquidos podem transbordar.
  • Intensidade VI : Todo mundo sente o terremoto. As pessoas caminham com dificuldade, os objetos e quadros caem, o revestimento dos muros pode rachar, árvores e arbustos são sacudidos. Danos leves podem acontecer em imóveis mal construídos, mas nenhum dano estrutural.
  • Intensidade VII : As pessoas têm dificuldade de se manter em pé, os motoristas sentem seus carros sacudirem, alguns prédios podem desmoronar e tjolos podem se desprender. Os danos são moderados em prédios bem construídos, mas podem ser grandes nos demais.
  • Intensidade VIII : Os motoristas têm dificuldade em dirigir, casas com fundações fracas tremem, grandes estruturas, como chaminés e prédios podem se torcer e quebrar. Prédios bem construídos sofrem danos leves, contrariamente aos outros, que sofrem severos danos. Os galhos das árvores se quebram, colinas podem ter fissuras se a terra está úmida e o nível d’água nos poços artesianos pode se modificar.
  • Intensidade IX : Todos os prédios sofrem grandes danos. As casas sem alicerces se deslocam. Algumas canalizações subterrâneas se quebram, a terra se fissura.
  • Intensidade X : A maior parte dos prédios e suas fundações são destruídos, assim como algumas pontes. As barragens são significativamente danificadas. A água é desviada de seu leito, largas fissuras aparecem no solo, os trilhos das ferrovias entortam.
  • Intensidade XI : Grande parte das construções desabam, as pontes e as canalizações subterrâneas são destruídas.
  • Intensidade XII : Quase tudo é destruído. O solo ondula. Rochas podem se deslocar.

É um desafio fascinante lidar com empresas em crise, principalmente com aquelas que acham que não estão passando por nenhuma dificuldade. Empresas que se vêem bem, senhoras do seu destino, não precisam de consultores inteligentes (capital intelectual externo), já que formulam internamente o que for necessário para o seu desenvolvimento ou sobrevivência.

Alguns empreendedores de sucesso reconhecem que a maioria dos fracassos não deriva de causas externas: “Quando as empresas falham, ou não crescem, o motivo é quase sempre a falta de investimentos nas pessoas, nos sistemas, e nos processos que precisam.”. Também podem não ter relação com a falta de capital: “[...] os negócios morrem muito mais de indigestão do que de fome.”.*

É muito difícil esperar que os gestores de um negócio tenham todas as respostas: “Eu também nunca previ o quanto solitário seria administrar uma empresa. Você nunca pode baixar a guarda e admitir o que você não sabe. Poucas pessoas podem compartilhar suas frustrações e ansiedades: quando você está perdendo dinheiro, quando tem que lidar com investidores que têm expectativas elevadas, quando você de repente se vê responsável por centenas de funcionários…”.**

Avaliar ativos intangíveis é algo muito maior que as métricas clássicas de performance, inclusive as contábeis: “O modelo organizacional de contabilidade trabalha sob o contexto de propriedade. Assume que você possui e controla tudo o que acontece na organização. Na economia atual dos ativos intangíveis isso não se aplica; as organizações exercem maior poder econômico, influenciando a qualidade e performance dos intangíveis de competitividade.“.***

Ainda que os ativos intangíveis sejam relevantes e valorizados no ambiente econômico atual, a maioria dos empresários ainda vê com ceticismo a sua lógica. Por exemplo, é sabido que o capital intelectual e as marcas são dois casos de ativos intangíveis relevantes. Também o é que nenhuma empresa pode declarar que é “dona” dos seus funcionários treinados, motivados, experientes e competentes. Na verdade, as estatísticas da Justiça do Trabalho revelam que a maioria deles entrará com ações, algumas vezes por razões justas, outras nem tanto. De acordo com os dados do Tribunal Superior de Justiça, a Justiça do Trabalho brasileira autuou, em 62 anos de funcionamento – de 1941 a 2002 -, quase 46 milhões e meio de processos e resolveu mais de 44 milhões. Em visita ao site do Tribunal Superior de Justiça, verificamos que a indústria, seguida do sistema financeiro, são os maiores fornecedores de causas trabalhistas.

O que as empresas podem, e devem fazer, é criar um sistema que identifique, organize e controle o modo como o conhecimento circula dentro das organizações. Com isso, elas poderão assegurar que os fatores de diferenciação e competitividade centrados nos recursos humanos possam ser transferidos ou utilizados em circunstâncias diversas (ou adversas).

As marcas são um capítulo mais simples, isso se pensarmos no contexto de “ativo”. As empresas as possuem legalmente, e não é incomum que sejam transacionadas, razão pela qual é possível dar-lhes um valor monetário, o qual pode ser demonstrado tecnicamente com maior ou menor vigor técnico. Todavia, enquanto propriedades intransferíveis e responsáveis pelo fluxo de caixa da maioria dos negócios, elas são sistematicamente administradas como rótulos, o que entendemos naqueles casos em que o consumidor é tratado como um mero fornecedor de dinheiro, para o qual basta oferecer comerciais de TV que prometem competência e satisfação, e não entregam.

Alquimia e Capital Intangível

A alquimia combina elementos de química, física, astrologia, arte, metalurgia, medicina, misticismo, e religião, compreendendo os seguintes objetivos: a transmutação dos metais inferiores em ouro; a obtenção do Elixir da Longa Vida, a panacéia universal, um remédio que curaria todas as doenças e daria vida eterna àqueles que o ingerissem; criar vida humana artificial, o homunculus. Esses objetivos poderiam ser atingidos através da Pedra Filosofal, uma substância mítica que amplificaria os poderes do alquimista. Antes de pensarmos que se trata de uma prática meramente esotérica, é bom lembrar que muita gente boa esteve envolvida com a alquimia, incluindo Sir Isaac Newton e Roger Bacon, dentre tantos.

Alguns estudiosos da alquimia admitem que o Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal são temas simbólicos, que provêm de práticas de purificação espiritual, e, dessa forma, não poderiam ser considerados substâncias reais. Há pesquisadores que identificam o Elixir da Longa Vida como um líquido produzido pelo próprio corpo humano, que teria a propriedade de prolongar indefinidamente a vida daqueles que conseguissem realizar a chamada “Grande Obra”.Os alquimistas lidavam com os elementos da natureza, e procuravam dar-lhes novas formas ou usos. Utilizavam-se de instrumentos reais (elementos químicos), muitas vezes para burlar as acusações de heresia e satanismo, coisas nada saudáveis em pleno regime da Inquisição.As escalas de Richter e Mercalli são metáforas que se referem aos sistemas de medição dos fatores intangíveis das organizações. Esses fatores podem ser medidos, apreciados e disponibilizados pela organização, para os seus públicos internos e externos, de modo que ofereçam pistas, alarmes ou indicadores de eficiência, e desde que permitam algum tempo de reação pelos públicos. 

Alguns intangíveis possuem características de “ativo”, o que entendemos como a sua possível conversão em caixa (passivo ou ativo), sendo esse o caso das marcas, patentes e certos contratos, os quais podem ser transacionados e aplicados em outras organizações, normalmente do mesmo setor econômico.

Outros intangíveis possuem o caráter de “fatores”, os quais não podem ser transacionados separadamente da empresa, já que dependem de outros intangíveis para funcionar, sendo exemplos o “capital intelectual” e “market share”. Embora ambos sejam fatores intangíveis importantes, eles não podem ser assegurados através de um contrato de compra, venda ou empréstimo. Nada garante que as pessoas não abandonem suas empresas em busca de oportunidades que lhes pareçam melhores; nenhum instrumento legal assegura participação de mercado, que independe de fatores externos alheios aos desejos das organizações.

A alquimia é uma metáfora interessante, igualmente no propósito de converter a matéria-prima grosseira em algo de valor. Ou seja, exceto os trabalhos pontuais para efeitos de perícias, fusões ou aquisições, de nada adianta avaliar se não for possível cooperar para a transformação e o desenvolvimento.

  • Share/Bookmark

Livros - Saiba mais sobre branding, marcas e intangíveis

Se você deseja se aprofundar em branding, administração de marcas e ativos intangíveis, sugerimos a a leitura de dois livros, obras de referência em cursos de marketing, administração e áreas afins.

Capa do livro Branding - o manual para você criar gerenciar e avaliar marcas

Branding o manual para você criar gerenciar e avaliar marcas

Branding é o único livro de autor brasileiro que tem experiência comprovada em avaliação de marcas, avaliação de ativos intangíveis e branding. Mais 10.000 cópias vendidas nas livrarias e 70.000 downloads desde janeiro de 2006 fazem dele o mais importante em sua categoriade. Baixe gratuitamente.

Capa do livro Grandes Marcas Grandes Negócios

Grandes Marcas Grandes Negócios

Com produtos e serviços cada vez mais competitivos e diversificados, como se diferenciar nas gôndolas dos supermercados, nas lojas de conveniência ou feiras e exposições? As pequenas e médias empresas podem praticar branding? Saiba a resposta neste livro, sucesso entre os empreendedores brasileiros, com mais de 5.000 cópias vendidas nas livrarias e quase 30.000 downloads. Baixe gratuitamente.